sábado, 29 de outubro de 2011

Zilda Arns, uma vida dedicada aos mais necessitados

A pequena cidade de Forquilhinha, em Santa Catarina, é o cenário do início de uma bela história de vida baseada no amor e solidariedade em favor das crianças, idosos e famílias pobres de todo o mundo. Foi neste humilde município que nasceu Zilda Arns, em 25 de agosto de 1934. Décima terceira, dos 16 filhos de Gabriel Arns e Helene Steiner, ambos brasileiros vindos de famílias alemãs, sempre manifestou o desejo e a prontidão em servir. Aos 7 anos de idade, dedicava sua atenção ao cuidar das crianças menores durante os horários de missas. Na época, poucos conseguiriam imaginar, mas a pequena solidária não era apenas uma criança comum, e aquele era o início de uma trajetória digna de uma mulher a frente de seu tempo.

O tempo passou e, em 26 de dezembro de 1959, Zilda casou-se com Aloísio Bruno Neumann, adquirindo seu sobrenome. Ao lado dele, instituiu sua família e viveu 19 anos, até que, em 1978, Aloísio veio a falecer. Durante este tempo, o casal teve 6 filhos, sendo que dois deles faleceram: Marcelo, três meses após o parto, e Silvia, em um acidente de automóvel, em 2003. Mesmo sentindo na pele a dor de uma mãe que perde os filhos, seu coração solidário resistiu a todos os obstáculos, e sua força de vontade sempre prevaleceu em meio as dificuldades.

Em busca de conhecimento e base teórica para aplicar sua força de vontade, cursou medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR), e se especializou em sanitarismo, saúde pública e pediatria, adquirindo embasamento para o combate as doenças e a busca pela melhoria de vida das comunidades carentes, que sofriam com a mortalidade infantil e a falta de cuidados básicos com a saúde das crianças, motivo de grande preocupação social e razão do trabalho de Zilda.

Durante sua caminhada profissional, atuou como pediatra no Hospital de Crianças César Pernetta, na cidade de Curitiba, onde cuidava de bebês com menos de um ano de idade. Em todo tempo de trabalho, sua dedicação pelas crianças se manifestava em parceria com sua trajetória como médica. A pediatra também trabalhou como chefe da divisão de Proteção Social do Departamento da Criança da Secretaria de Saúde Pública do Paraná e como diretora técnica da associação filantrópica Sara Lattes, onde assimilava seu talento médico com sua paixão pela causa dos pobres e menos favorecidos.

Em 1980, foi a coordenadora da campanha de vacinação Sabin e trabalhou no combate a primeira epidemia de poliomielite, que teve início no Estado do Paraná, na cidade de União da Vitória. A partir deste trabalho, Zilda uniu seus conhecimentos médicos e sua intimidade com o serviço aos mais necessitados e desenvolveu um eficiente método inovador, que foi, posteriormente, adotado pelo Ministério da Saúde.

Seu talento passou a ser reconhecido por médicos e diversos outros profissionais, conhecedores das atividades que ministrava, tanto na área social, como no tratamento aos doentes.

Analisando a necessidade da população, elaborou um projeto com a ajuda do irmão, Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo emérito de São Paulo, através do qual acreditavam ser possível a atuação entre a comunidade e a igreja na melhoria de vida de crianças necessitadas e desnutridas das comunidades carentes por todo o País. O projeto-piloto foi desenvolvido em Florestópolis, no Paraná, onde percebeu uma preocupante realidade. Com o desenvolvimento das atividades de conscientização e prevenção, os índices de mortalidade infantil, desnutrição e outros agravantes diminuíram consideravelmente, e o sonho de Zilda Arns ganhou reconhecimento em todo o País.

Sabendo dessa afinidade intensa com a causa dos carentes e do sucesso no seu trabalho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o apoio da Unicef, convidou a pediatra para implantar a Pastoral da Criança nos demais Estados do País em 1983, tornando-a coordenadora nacional do projeto. Segundo Zilda, a certeza de sucesso da Pastoral era presente desde sua fundação, pois se tratava de um trabalho com a conscientização das mães que, muitas vezes, possuíam filhos adoentados por não terem conhecimento sobre alguns cuidados fundamentais na prevenção de doenças e no combate a desnutrição.

O bem-sucedido método de Zilda se baseia no treinamento de voluntários das próprias comunidades onde vivem, fazendo com que o acompanhamento das famílias seja mais eficaz e que o pensamento solidário de ajuda ao próximo aconteça em todas as partes do País. Sempre pregando o amor a vida, princípio básico de dona Zilda, como a chamavam em muitos dos lugares por onde passava, seu projeto valoriza a prevenção, a partir dos hábitos e da melhora na qualidade de vida das comunidades, distribuindo e orientando a educação e o conhecimento entre as famílias.

Seu espírito de mãe zelosa sempre se estendeu aos filhos das mães necessitadas, e inspirou a dedicação de toda uma vida, com seu trabalho de assistência e cuidados com a saúde e o bem estar das pessoas. Assim, nos quase 27 anos de existência da Pastoral, mais de 1milhão e meio de famílias já foram atendidas em mais de 22 mil comunidades pobres de todo o País, revertendo precárias situações de agravantes taxas de mortalidade e desnutrição. Com idéias inovadoras, como a multi-mistura, que já salvou milhares de crianças, seu trabalho tornou-se a razão de vida de milhões de outras pessoas, dedicadas voluntariamente ao trabalho na Pastoral.

Com o sucesso incontestável do trabalho com as crianças carentes, a CNBB encarregou a corajosa doutora a uma nova missão em 2004: a de fundar e colocar em prática a Pastoral da Pessoa Idosa. Mesmo com os inúmeros compromissos e responsabilidades que lhe cabiam por estar a frente de seu antigo projeto, Zilda aceitou o desafio e passou a conciliar seus horários, muito corridos, a uma rotina dividida entre as duas pastorais. Com sua dedicação e amor em servir, conseguiu estabelecer o segundo projeto em todo o País, levando solidariedade, saúde e cidadania a mais de 100 mil idosos, através do trabalho de mais de doze mil voluntários em 25 Estados.

Durante seus últimos anos de vida, viajou pelo Brasil e pelo mundo ensinando e implantando seus projetos nos mais variados lugares onde há pobreza. Por sua dedicação e pioneirismo, foi indicada em 2006 para o Prêmio Nobel da Paz e, em outras quatro edições, representou a Pastoral da Criança ao concorrer a este mesmo prêmio. Além disso, durante toda sua caminhada, recebeu inúmeras premiações e homenagens em reconhecimento ao seu trabalho.

Em 12 de janeiro de 2010, após ministrar uma palestra sobre o trabalho da Pastoral da Criança, na cidade de Porto Príncipe, no Haiti, Zilda Arns foi uma das milhares de vítimas do violento terremoto que afetou o País, deixando ao mundo um exemplo de dedicação e força de vontade, e às suas estimadas comunidades carentes, um projeto de esperança e alegria de viver. A doutora, missionária, mãe, avó, amiga, irmã dos necessitados, a quem dedicou toda sua historia e seu trabalho, faleceu de maneira heróica: em missão. Mesmo tendo falecido, a certeza que fica entre os que acreditam e vivem sua obra é a de que o projeto de Zilda Arns permanece. Aquela que, por uma simples ironia de seu destino pioneiro, nasceu no dia do soldado e partiu lutando, na aparente guerra por um mundo melhor.

Letícia Paris
(Publicado em Março de 2010, na Revista O Mensageiro de Santo Antônio)

Um comentário:

Deise disse...

Ela teve uma morte heroica! E acredito que ela esta la junto a Deus fazendo ainda seu trabalho, deve ser um dos anjos mais lindo do céu.. o mundo precisa de mais pessoas como ela. :')